QUANDO ESCREVO.

Eu não escrevo o tempo todo.

Na maior parte do tempo, estou apenas cuidando da minha vida.

Caminho, observo, respiro, sigo meus dias como qualquer outra pessoa. Mas é justamente nesses momentos — quando não estou tentando criar nada — que a escrita começa a acontecer. Não no computador, mas dentro de mim.

Durante minhas caminhadas pelo calçadão da praia, o mundo se apresenta em camadas. Vejo o mar, sempre em movimento, a areia mudando de desenho a cada dia, as pessoas passando com seus ritmos próprios, as palmeiras balançando ao vento. Vejo as gaivotas e as fragatas disputando o melhor ar, o melhor vento, como se conhecessem segredos invisíveis para nós. Tudo isso está ali, real, concreto, diante dos olhos.

E, sobreposto a esse cenário cotidiano, algo começa a surgir.

Imagens que não pertencem à paisagem, mas insistem em se misturar a ela. Uma cena, um personagem, um fragmento de história. No início, quase imperceptível. Depois, cada vez mais presente. Não é um pensamento organizado, é uma sensação. Uma espécie de incômodo criativo que me acompanha por dias. Às vezes por semanas.

Quando isso acontece, sei que uma nova história está pedindo passagem.

Meu processo criativo não é imediato nem voluntário. Ele se impõe. As imagens retornam, se repetem, se transformam. Elas me acompanham enquanto caminho, enquanto observo o mundo, enquanto sigo vivendo. Até que chega um ponto em que não dá mais para ignorá-las. Preciso sentar diante do computador e permitir que essas imagens encontrem forma em palavras.

Escrever é, então, um gesto de alívio e de entrega.

Há momentos em que a relação com os personagens ultrapassa o simples exercício da imaginação. Quando escrevi O Rei que Amava, me apaixonei pela princesa Anahita. Ela se tornou viva para mim, presente, intensa. Não era apenas uma personagem — era alguém que eu conhecia, que admirava, que despertava afeto. Esse tipo de vínculo não se planeja. Ele acontece.

O mesmo ocorreu quando escrevi Salina. Ao criá-la, vi nela a minha filha. E, por isso, a amei. Esse amor atravessou a escrita, orientou escolhas, deu profundidade às emoções da história. Talvez o leitor não saiba exatamente de onde vem essa força, mas ela está lá, impregnada nas páginas.

Acredito que a ficção nasce desse encontro delicado entre o mundo externo e o mundo interno. A realidade fornece as imagens, os sons, os movimentos. A imaginação reorganiza tudo, cria novas possibilidades, faz perguntas que a vida cotidiana nem sempre permite formular. Escrever é permitir que essas duas dimensões se sobreponham.

Eu não começo um livro com uma estrutura rígida ou um plano fechado. Começo com imagens que insistem, com personagens que se aproximam, com sentimentos que pedem nome. O trabalho vem depois: transformar essa matéria sensível em narrativa, respeitando o ritmo da história e a verdade emocional que a originou.

Talvez seja por isso que meus livros não nasçam da pressa. Eles nascem da observação, da caminhada, do olhar atento, do afeto. Nascem quando a vida, em silêncio, começa a contar histórias — e eu aceito ouvi-las.

Este blog é uma extensão desse processo. Um espaço para compartilhar não apenas livros prontos, mas o caminho invisível que leva até eles. Se você se permite observar o mundo com atenção, talvez também reconheça essas imagens insistentes, esses personagens que parecem pedir existência. A literatura começa assim: quando a vida deixa de ser apenas vivida e passa a ser sentida em camadas.

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